Como a Ucrânia resiste e não vê derrota próxima, 4 anos após invasão russa
Este mês completa quatro anos desde o início da invasão em larga escala, e um cessar-fogo ainda parece distante. Em uma noite escura e fria em Donetsk, no leste da Ucrânia, as redes que protegem a estrada contra ataques de drones explosivos cintilavam e ondulavam sob os faróis de nosso Toyota Land Cruiser blindado, enquanto atravessávamos...
Este mês completa quatro anos desde o início da invasão em larga escala, e um cessar-fogo ainda parece distante.
Em uma noite escura e fria em Donetsk, no leste da Ucrânia, as redes que protegem a estrada contra ataques de drones explosivos cintilavam e ondulavam sob os faróis de nosso Toyota Land Cruiser blindado, enquanto atravessávamos túneis estranhos e surreais para entrar e sair da área de combates mais intensos no leste do país.
Essas redes se estendem por quilômetros, suspensas em postes de madeira com cerca de 6 metros de altura, ao longo das laterais e sobre o topo da via. Veículos militares de aparência distópica, que parecem saídos do filme pós-apocalíptico Mad Max 2, passam roncando, envoltos em suas próprias gaiolas de aço e malha.
As redes prendem as hélices dos drones que atacam, funcionando como uma barreira física barata e surpreendentemente eficaz. Mesmo que os operadores russos detonem a carga transportada pelo drone, há a possibilidade de que a explosão não ocorra perto o suficiente para matar pessoas que trafegam pela via em ônibus e carros civis, além de veículos militares.
Grande parte das redes foi doada por pescadores europeus. Apenas nesta semana, o governo da Escócia anunciou o envio de outras 280 toneladas de redes de salmão que estavam prestes a ser recicladas. Antes de qualquer uso, as Forças Armadas ucranianas lançam drones contra o material para testar sua resistência.
As três letras mais temidas no campo de batalha são FPV, sigla para first-person view (“visão em primeira pessoa”, em tradução livre). Drones FPV estão entre os principais responsáveis por mortes e são utilizados tanto pela Ucrânia quanto pela Rússia. Eles têm câmeras que transmitem informações a seus operadores em um centro de comando que pode estar a 30 ou 40 km de distância. Visitamos alguns desses centros, escondidos em porões de prédios destruídos ou em casas discretas de vilarejos.
No interior, há fileiras de telas que transmitem vídeos e dados dos drones, analisados por softwares avançados das Forças Armadas ucranianas. As câmeras ampliam pequenas figuras de soldados que se movem entre ruínas, enquanto os operadores orientam os homens em terra por meio de rádios comunicadores, codinomes e fones de ouvido. Vimos soldados entrando em edifícios onde os drones haviam identificado russos escondidos e saindo após matá-los.
As primeiras versões dos drones eram controladas por sinais de rádio, mas ambos os lados dominam a guerra eletrônica e rapidamente encontraram formas de bloqueá-los. Hoje, a maioria é controlada por cabos de fibra óptica, tão finos que um carretel de 25 km (que transporta dados e vídeo) cabe em um compartimento acoplado ao drone do tamanho de uma grande garrafa de água sanitária.
O leste da Ucrânia costumava lembrar a Frente Ocidental na Primeira Guerra Mundial, com trincheiras e abrigos reforçados contra artilharia e atiradores de elite. Após a invasão em larga escala, há quatro anos, ainda parecia, por algum tempo, um campo de batalha do século 20. No entanto, agora, os drones transformaram a forma como a guerra é travada, e Exércitos em todo o mundo observam de perto, obrigados a rever suas concepções sobre como realizar combates.
A estreita linha de confronto que antes existia entre os dois lados agora se estende por uma ampla faixa de território que ambos chamam de kill zone (zona de morte, em tradução livre), que pode alcançar cerca de 20 km para cada lado a partir das posições avançadas dos dois Exércitos. Áreas de retaguarda destinadas à logística e ao atendimento de feridos, que antes eram relativamente seguras, tornaram-se tão letais quanto a antiga linha de frente.
Os céus ficam saturados de drones de vigilância, tornando qualquer deslocamento extremamente perigoso. Redes sociais estão repletas de vídeos impactantes gravados por drones FPV, que mergulham sobre seus alvos, às vezes perseguindo indivíduos em campo aberto ou até entrando em prédios, atravessando salas e portas até localizar o alvo. A última imagem costuma mostrar um homem aterrorizado prestes a morrer.
Artilharia e tanques continuam sendo armas formidáveis. Mas um drone que custa cerca de US$ 1 mil (aproximadamente R$ 5 mil) pode, nas mãos de um operador habilidoso, destruir um tanque avaliado em US$ 30 milhões (cerca de R$ 150 milhões). O jornal americano The Wall Street Journal informou recentemente que um pequeno grupo de operadores ucranianos de drones causou grande impacto ao ser convidado a enfrentar forças da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) em um exercício na Estônia no ano passado. A Otan ainda precisa recuperar o terreno. Uma das principais consequências dos últimos quatro anos de guerra é que a Ucrânia e a Rússia se tornaram os mais experientes e proficientes praticantes de guerra com drones no mundo.
Os dois países inovam constantemente para ganhar vantagem na guerra dos drones. Ambos utilizam o sistema Starlink, de propriedade do empresário Elon Musk, o homem mais rico do mundo, para comunicações e navegação no campo de batalha. Os russos sofreram um revés recente quando Musk concordou em desativar terminais registrados na Rússia que estavam ativos dentro da Ucrânia. Isso parece ter sido uma razão importante para que a Ucrânia, com um sistema Starlink ativo financiado pela Polônia, tenha recentemente recuperado território no sul.
Todas as unidades ucranianas de drones que foi visitado, porém, afirmaram acreditar que os russos logo encontrariam uma forma de contornar a medida. Elas demonstram respeito pelas habilidades das unidades russas de elite de drones que, segundo disseram, se chamam Rubicon (Rubicão) e Day of Judgement (Dia do Julgamento).
Um oficial de alta patente afirmou que os europeus ocidentais precisam esquecer os erros militares cometidos pela Rússia após a invasão em larga escala há quatro anos e distinguir os milhares de soldados russos da linha de frente mortos a cada mês das unidades de elite de drones que Moscou considera parte central de seu esforço de guerra. Segundo ele, essas unidades são “valorizadas” pelo Exército russo.
Na visita mais recente à Ucrânia, a ameaça dos drones nos levou a acompanhar de perto a previsão do tempo antes de seguir para Donetsk. Adiamos a viagem em um dia de céu azul e esperamos por mais neve. Drones enfrentam dificuldades em mau tempo.
Nos sentindo um pouco mais seguros com as redes e a neve, seguimos em direção à cidade de Slovyansk, passando por carcaças de prédios destruídos ao longo dos últimos quatro anos. Slovyansk ainda funciona como cidade, ainda que precariamente, com alguns cafés e lojas abertos. Mas milhares de moradores se mudaram para locais mais seguros e, quando os que permaneceram saem às ruas, o temor dos drones FPV russos faz com que se apressem pelas vias geladas e cobertas de neve para concluir suas tarefas e voltar para casa com vida. Redes estão sendo instaladas no centro da cidade.
Slovyansk está no topo da lista inflexível de exigências do presidente russo, Vladimir Putin, para um cessar-fogo. Parte significativa do preço que ele cobra é que a Ucrânia entregue cerca de 20% de Donetsk que ainda controla, além de outras áreas que seu Exército não conseguiu capturar nas regiões meridionais de Zaporizhzhia e Kherson. Segundo o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, os americanos o pressionaram a aceitar o acordo, para alcançar um cessar-fogo até o verão no hemisfério norte (entre junho e setembro).
O presidente dos EUA, Donald Trump, também quer que Zelensky convoque eleições, exigência que não fez a Putin. Indícios sugerem que Trump busca poder declarar que encerrou a guerra. Mesmo que um cessar-fogo não se sustente, ele o trataria como vitória a ser levada para as eleições legislativas de meio de mandato nos EUA no próximo novembro. Ele também mira grandes acordos comerciais com a Rússia, que não podem avançar enquanto as sanções estiverem em vigor.
Os americanos tentaram impor prazos para um acordo. Mais recentemente, disseram a Zelensky que ele precisava concordar com um cessar-fogo até o verão, para que Trump pudesse se concentrar nas eleições de meio de mandato. A incapacidade dos EUA de impor sua vontade à Ucrânia ou à Rússia mostra que sua influência tem limites. Quatro anos após a invasão em larga escala promovida pela Rússia, não há evidências concretas de que um cessar-fogo genuíno esteja próximo.
Ucrânia desafiadora
As negociações mediadas pelos enviados de Donald Trump seu genro, Jared Kushner, e o amigo, o bilionário do setor imobiliário Steve Witkoff continuam. Está previsto que voltem a se reunir em Genebra (Suíça) após o aniversário da invasão. Witkoff fez declarações otimistas depois da última rodada, mas tanto a Rússia quanto a Ucrânia falaram em ambiente difícil.
É difícil vislumbrar qualquer tipo de cessar-fogo sem que Putin ou Zelensky alterem suas posições fundamentais. Como ambos os lados acreditam que ainda podem lutar até alcançar algum tipo de vitória, não é provável que isso mude.
As negociações parecem mais um exercício para apaziguar Trump, de modo que ele não possa culpar Moscou ou Kiev por eventual fracasso. O presidente americano tende a querer pressionar mais a Ucrânia. No passado, afirmou, sem fundamento, que Zelensky é um ditador que iniciou a guerra. Zelensky riu e disse que isso não é verdade quando lhe perguntei sobre a declaração. Na véspera da última rodada, pouco antes do aniversário, Trump disse a jornalistas que “a Ucrânia precisa ir para a mesa de negociações, e rápido”.
Trump encerrou quase toda a ajuda militar, mas a Ucrânia ainda depende de informações de inteligência que apenas os EUA podem fornecer. A Europa compra armas americanas especialmente mísseis interceptadores em nome da Ucrânia.
Nesta viagem ao país, encontrei uma Ucrânia que permanece desafiadora. Não há sensação de derrota iminente.
As grandes cidades funcionam relativamente bem, apesar dos ataques concentrados e eficazes da Rússia, ao longo deste inverno rigoroso, contra a rede de energia e aquecimento. Em Kiev, há congestionamentos, lojas abastecidas, restaurantes e cafés abertos.
Também há sirenes de ataque aéreo, frequentemente na madrugada, e relatos trágicos de civis mortos dentro de suas próprias casas por drones e mísseis balísticos russos. A Ucrânia está reconstruindo o complexo industrial-militar que existia na era soviética, com foco em ataques de longo alcance contra a Rússia.
O presidente Volodymyr Zelensky disse acreditar que a Ucrânia pode vencer a guerra e que, para continuar lutando, precisará de níveis crescentes de apoio europeu.
A primavera se aproxima, mas, nesta parte da Europa, o inverno pode se estender até abril. A Rússia impôs forte pressão sobre a Ucrânia ao longo do inverno mais rigoroso dos últimos anos, ao atacar usinas de energia e instalações da era soviética que fornecem água quente e aquecimento a bairros inteiros.
Nas ruínas de uma usina que os ucranianos permitiram que visitássemos sob a condição de não identificá-la, trabalhadores retiravam aço dos escombros. A instalação havia sido duramente atingida por mísseis e drones russos. Reparos estavam fora de cogitação. Seria necessário reconstruí-la.
Com sua respiração formando nuvens no ar, em temperaturas muito abaixo de zero, um encarregado resumiu a atitude comum na região ao ser questionado sobre o motivo dos ataques russos.
“Eles querem nos fazer ajoelhar. Querem colocar a Ucrânia de joelhos.”
Isso é fato, e a determinação da Ucrânia de impedir que isso aconteça explica por que a guerra continua.