Livro didático da língua Kokama é lançado e marca conquista histórica do povo indígena

O povo Kokama viveu um momento histórico no dia 30 de janeiro, com o lançamento oficial do livro didático da língua Kokama, em evento realizado na Universidade do Estado do Amazonas (UEA) que contou com a presença de autoridades civis, militares e lideranças indígenas da região. A obra representa mais de três décadas de mobilização...

Livro didático da língua Kokama é lançado e marca conquista histórica do povo indígena

O povo Kokama viveu um momento histórico no dia 30 de janeiro, com o lançamento oficial do livro didático da língua Kokama, em evento realizado na Universidade do Estado do Amazonas (UEA) que contou com a presença de autoridades civis, militares e lideranças indígenas da região.

A obra representa mais de três décadas de mobilização coletiva, resistência cultural e compromisso intergeracional com a preservação da língua materna.

A construção do livro teve início no final da década de 1980, a partir do esforço conjunto de falantes da aldeia Sapotal e da professora linguista Ana Suely Cabral, marcando um dos primeiros movimentos de registro e sistematização da língua Kokama. O processo, no entanto, foi interrompido e retomado em diferentes momentos ao longo dos anos, sempre impulsionado pela preocupação com o risco de extinção da língua.

Em 2001, o projeto ganhou novo fôlego com a retomada das discussões e a realização das Assembleias Gerais do povo Kokama, que passaram a ter como pauta permanente a revitalização linguística por meio da produção de um material didático próprio. Desse movimento surgiu a Organização dos Professores Kokama, responsável por articular encontros, assembleias e espaços específicos de debate com o objetivo de concluir o livro.

Lideranças como Eládio Curico, Edney da Cunha Samias e Glades Ramires tiveram papel fundamental na condução política e institucional do processo, ampliando a visibilidade da língua Kokama nos espaços educacionais e de decisão. Destaca-se ainda a atuação do professor Edemildo Cobos, presidente da Organização dos Professores Kokama, cuja liderança foi decisiva para garantir a continuidade do projeto ao longo dos anos.

Apesar de nova interrupção em 2008, o trabalho foi retomado em 2019, em um contexto de ampla articulação entre organizações, associações, federação e o patriarcado Kokama. A união desses diferentes segmentos permitiu que o livro fosse finalmente concluído, consolidando-se como um instrumento de resistência, identidade e afirmação cultural.

O livro reúne contribuições de falantes dos municípios de Tabatinga, Benjamin Constant, São Paulo de Olivença, Amaturá, Santo Antônio do Içá, Jutaí e Fonte Boa, e tem como base fundamental o conhecimento dos anciões falantes, reconhecidos como guardiões da memória viva da língua.

A obra também presta homenagem à memória de Benjamim Samias, Antônio Samias, Maria Minaca, Angelina Samias, André Samias, Otávio Curico, Cristóvão Moçambite, Anselmo Samias, Francisco Samias e Guilherme Samias, além de reconhecer e valorizar os anciões que seguem vivos, mantendo a língua Kokama pulsando na oralidade e na memória coletiva, como seu Inocêncio Arimuia, Felisberto Maurício, Anízio e Cristóvão.

Mais do que um material pedagógico, o livro didático da língua Kokama simboliza a resistência histórica, a união política e o compromisso do povo Kokama com a preservação de sua língua e identidade, reafirmando o direito à educação escolar indígena e à valorização dos saberes ancestrais.